De acordo com o relatório anual do secretário-geral das Nações Unidas sobre crianças e conflitos armados, foram verificadas 954 violações graves contra 507 crianças em Cabo Delgado durante 2024. Entre os casos registados estão o recrutamento e utilização de 403 menores, 332 rapazes e 71 raparigas, por grupos armados.
O mesmo relatório indica que 468 crianças foram raptadas por grupos armados durante o período analisado. Segundo os dados citados no relatório, 392 desses casos estiveram relacionados com o recrutamento e utilização de menores.
A situação é particularmente preocupante em Cabo Delgado, província do norte de Moçambique afectada por uma insurgência armada desde 2017. A UNICEF considera o recrutamento, a utilização e o rapto de crianças entre as principais violações dos direitos dos menores no contexto do conflito.
A dimensão da crise também se reflecte no número de deslocações. Dados das Nações Unidas indicam que 12.174 pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas em Cabo Delgado apenas em Junho de 2026, elevando para 26.184 o número de novos deslocados na província desde o início deste ano. Mulheres e crianças representaram 79% dos deslocados registados em Junho.
A UNICEF já tinha alertado, em 2024, que a escalada dos ataques em Cabo Delgado e Nampula provocara a deslocação de quase 100 mil pessoas num único mês, entre as quais mais de 60 mil crianças. A organização destacou ainda o risco acrescido de violência, exploração e recrutamento para os menores separados das suas famílias.
O impacto do conflito estende-se igualmente à educação. Em Março de 2024, a UNICEF informou que 81 das 142 escolas do distrito de Chiúre estavam encerradas devido à insegurança, afectando mais de 47 mil alunos.
Apesar da gravidade da situação, existem esforços para recuperar e reintegrar crianças afectadas pelo conflito. No seu relatório sobre 2024, a UNICEF refere que 649 crianças anteriormente associadas a forças ou grupos armados foram libertadas e reintegradas através de programas de protecção, com o apoio de parceiros e das autoridades moçambicanas.
A organização também tem desenvolvido programas de apoio psicossocial e reintegração escolar. Um dos casos acompanhados pela UNICEF é o de uma menina de 12 anos, identificada pelo nome fictício de Sonia, raptada em Cabo Delgado em Maio de 2024. Depois de escapar, recebeu acompanhamento psicológico e apoio para regressar à escola.
A violência mantém uma forte pressão sobre a resposta humanitária. Para 2026, o plano das Nações Unidas para as zonas afectadas pelo conflito no norte do país prevê 348 milhões de dólares para responder às necessidades mais urgentes de cerca de 1,1 milhão de pessoas, incluindo 919 mil consideradas prioritárias em áreas de maior gravidade em Cabo Delgado.
A UNICEF continua a defender o reforço da protecção das crianças e alerta que os raptos e o recrutamento por grupos armados constituem graves violações dos direitos da criança, com consequências que podem prolongar-se muito para além do período de conflito. Em Fevereiro de 2026, a organização voltou a manifestar preocupação com novos relatos de raptos e recrutamento de menores no norte de Moçambique.

Foto: Mais de 400 crianças foram recrutadas por grupos armados em Moçambique em 2024 — Arquivo CF