De acordo com o documento, foram registados 546 casos de violência sexual nos últimos três anos, envolvendo sobretudo mulheres e raparigas. Entre as vítimas identificadas encontram-se 539 mulheres, 284 raparigas, oito homens e sete rapazes.
As Nações Unidas indicam que a maioria dos abusos terá sido cometida por elementos associados às Forças de Apoio Rápido (RSF), grupos aliados e milícias árabes. O relatório refere igualmente a existência de casos atribuídos às Forças Armadas sudanesas.
O Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, considerou que a violência sexual está a ser utilizada como instrumento de guerra, uma prática que pode configurar crime de guerra e, em determinadas circunstâncias, crime contra a humanidade.
O relatório destaca ainda que cerca de um quarto dos incidentes documentados corresponde a violações em grupo. As consequências para as vítimas têm sido particularmente graves, incluindo mortes, complicações médicas severas e dezenas de casos de gravidez resultantes dos abusos.
Além das violações, a ONU identificou outras formas de violência, como escravidão sexual, casamentos forçados, prostituição coerciva, tortura sexual e tráfico de pessoas para exploração sexual. Pelo menos 85 casos de escravidão sexual foram documentados durante o período analisado.
Segundo a organização, estes actos têm ocorrido paralelamente a ataques sistemáticos contra civis, sendo utilizados como parte das estratégias de intimidação e controlo das populações afectadas pelo conflito.
A guerra no Sudão teve início em Abril de 2023, na sequência das divergências entre as Forças Armadas e as Forças de Apoio Rápido sobre a integração dos grupos paramilitares nas estruturas militares do país. Desde então, os confrontos provocaram dezenas de milhares de mortos e mais de 11 milhões de deslocados.
As Nações Unidas classificam actualmente a situação no Sudão como uma das mais graves crises humanitárias do mundo, apelando ao reforço da protecção dos civis e à responsabilização dos autores das violações dos direitos humanos.

Foto: ONU denuncia mais de 800 vítimas de violência sexual durante conflito no Sudão — Arquivo CF