Segundo a organização, 476 crianças foram infetadas desde o início do surto, sendo que as mortes infantis representam cerca de 20% do total de óbitos confirmados até ao momento. A província de Ituri, situada junto às fronteiras com o Uganda e o Sudão do Sul, continua a ser o principal foco da epidemia.
Além das consequências físicas da doença, milhares de crianças enfrentam graves problemas emocionais e psicológicos. A Save the Children presta atualmente apoio psicossocial a mais de 4.000 menores, através de espaços seguros criados para proporcionar actividades recreativas, apoio emocional e um ambiente protegido onde possam recuperar do trauma provocado pela epidemia.
De acordo com a organização, muitas crianças perderam familiares, foram separadas dos pais devido ao isolamento sanitário ou à morte dos seus cuidadores, enquanto outras vivem deslocadas por causa da violência armada que afeta há décadas o leste da RDCongo.
O coordenador da resposta ao Ébola da Save the Children na RDCongo, Babou Rukengeza, afirmou que as crianças da região enfrentam uma dupla crise.
"As crianças em Ituri carregam um enorme fardo emocional. Muitas testemunharam violência, perderam familiares devido ao Ébola ou foram obrigadas a deslocações repetidas. Os espaços seguros ajudam-nas a recuperar a confiança e a voltar a sentir-se crianças."
A organização alerta que o stress prolongado durante a infância pode comprometer o desenvolvimento cognitivo, a saúde mental e o bem-estar físico a longo prazo, caso não sejam disponibilizados serviços adequados de apoio psicológico e social.
Mais de 960 mortos desde o início da epidemia
Segundo o mais recente balanço divulgado pelas autoridades sanitárias congolesas, a República Democrática do Congo registou 2.423 casos confirmados de Ébola, dos quais 967 resultaram em morte, correspondendo a uma taxa de letalidade de cerca de 39,9%.
A epidemia está associada à variante Bundibugyo do vírus Ébola, cuja taxa de mortalidade pode variar entre 30% e 50%. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe atualmente uma vacina autorizada nem um tratamento específico para esta estirpe.
A OMS considera elevado o risco de propagação da doença na África Subsaariana, sobretudo nos países vizinhos da RDCongo, mas avalia o risco de disseminação global como baixo, mantendo uma vigilância permanente sobre a evolução do surto.
Esta é considerada a 17.ª epidemia de Ébola registada na República Democrática do Congo e uma das mais graves da história do país.
O vírus Ébola transmite-se através do contacto direto com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas ou animais infetados, podendo provocar febre hemorrágica grave, vómitos, diarreia, hemorragias internas e falência de múltiplos órgãos.

Foto: Surto de Ébola na RDCongo já provocou a morte de pelo menos 189 crianças — Arquivo CF